Eu sou uma palavra. Qualquer uma que você quiser. Vale
até palavrão. Menos número. Aí você me ofende. Nunca
tive muitas afinidades com eles. Não se atreva em me
comparar com juros e porcentagens.
Eu sou uma palavra! Se perguntar qual, claro que eu
não vou saber responder. Mas eu sou uma palavra.
Escrita, não falada. Tá bom, vai, eu assumo que,
quando criança, eu gostava mesmo era de desenhar. Só
que as professoras só elogiavam os textos.
Na 5ª série pediram uma redação. Fiz quase que um
roteiro de desenho animado. Na 8ª, a professora de
português não gostava muito das minhas bagunças e
também pediu uma redação. Deixou de gostar ainda mais.
Mas ela teve que se render à forma das palavrinhas
escritas. No colegial, mais uma vez me pediram uma
redação. E descobriram a poesia. Daquelas de
garoto-rebelde-sem-causa. Ah, e conseqüentemente as
menininhas também descobriram as rimas, versos e
prosas recheadas de angústia adolescente. Resumindo o
período, elas botavam pra fora o que sentiam ao ler.
Daí eu botava pra dentro.
É por isso que eu sou uma palavra.
Uma vez eu enfiei na cabeça que encontraria, em chat,
“a mulher que melhor escrevesse em todo o mundo”.
Encontrei-a. Do outro lado do Atlântico. E ela me
mostrou que além das poesias cheias de angústias,
havia criatividade. Essência de quase todo texto
não-jornalístico, mas que poderia render uma grana, já
que poesias... no way.
De lá pra cá eu escolhi a dedo uma nova paixão por
meio de cartas e e-mails (você não esperava que fosse
de outra maneira), fiz publicidade e me safei das
matérias voltadas a números, como estatística e mídia,
através das provas escritas, claro (ainda bem que elas
existiam!).
Depois, arrumei empregos em agências de propaganda,
criei coisas legais, outras nem tanto e até já tasquei
alguns prêmios.
E se você, ao ler tudo isso, ainda acha que eu não sou
uma palavra e sim que eu a amo, você está certo. Antes
de amar os outros, devemos amar a nós mesmos. Eu me
amo. Porque eu sou uma palavra. A que você quiser.
Mas, sobretudo, a que está no meu coração toda vez que
apanho uma caneta.
p.s. se você não encontrar nenhuma que me resuma, pode
me chamar de mauro.
foto: Marianne Le Carrour
http://mariannelecarrour.photographie.artlimited.net/
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