Os carros da minha vida

Homens são aficionados por carros. Doentes. Retardados. Aloprados. Acho que a única coisa comparável à esta obsessão é o sexo.

Homem que é louco por carro tem boas probabilidades de ser louco por sexo. Deve ser por isso que homem não compra simplesmente um carro: compra um matadouro.

Além de adquirir um automóvel que na maioria das vezes tenha o seu estilo, homem quer o possante pra dar umas pimbas pelos drive-ins. Ou pelo menos para facilitar o encontro e a quantidade das parceiras, além de economizar no táxi o que pode ser investido no motel.

Homem que chega até os 30 sem ter tido pelo menos três carangas é porque nunca teve tanto dinheiro. Eu, particularmente, andei na contramão dessa estrada. Priorizei outras áreas como estudo, trabalho, carreira, casa e nunca tive um carrão.

Tudo começou com o Passat 79 que surgiu na minha vida no final dos anos 90. Logo depois foi a vez do Uno 91 em 2001. Por fim o Palio 97 a partir de 2003. 

Todos com poltronas que quebraram muitos galhos. Provavelmente o que menos viu mulheres peladas foi o Uno, já o Passat perdeu as contas... O Palio acompanhou momentos lindos e tristes, pois foi o carro do meu acidente em estrada no começo de 2009. Marcante, útil, companheiro e prestativo, Palio. Básico, filmado. Motor 1000, claro. Mais de 50 mil quilômetros (apenas comigo) rodados.

Pois é, o querido Palio está com os dias contados. E este texto poderia ser uma homenagem ao Peugeot 2008 preto, 4 portas, completAÇO, vidros, travas, ar, xenon, rodas de liga, bancos de couro (meu sonho de consumo), mas eu prefiro registrar esses últimos momentos com o Palio.

Na boa, entregá-lo pela ninharia que a concessionária está pegando faz parte do meu desapego material, mas confesso que ter vivido com este Palio por 7 anos foi marcante, ducaráleo.

Primeiro porque ele manteve o meu foco em comprar uma casa. Por mais doloso que isso tenha sido em minha vida, era o foco que eu optei. Ponto.

Segundo, porque consertá-lo foi uma constante tão filha-da-mãe que a gente se acostuma e foda-se.

Terceiro porque tive momentos bons nele, viagens legais, recuperação pessoal solitária, terapias, diversões, sacanagens.

O Palio me levou ao trabalho, aos puteiros, aos parques para treinos, a tantas cidades... Ô, Palio.  

Consertá-lo do acidente levou uma grana que poderia muito bem ter servido para trocá-lo. E depois ele se manteve ao meu lado na minha recuperação pessoal e profissional.

O danado me levou à Floripa, Londrina, Ribeirão, Assis afins... Me levou aonde eu estou hoje. Com direito a alguns estragos extras, mas sempre evitando que eu chegasse atrasado. Ou andasse de busão, mototáxi e o cacete tomador de tempo e paciência à quatro.

Espero que tenhas um bom dono, Palio vinho e amado. Que ele cuide com todo carinho que os seus pneus meia-solas merecem, seu motor já baleado precisa, e estofados que aguentaram meu suor e foram à todo custo conservados.

Espero que seu novo dono cuide melhor do que eu cuidei, sinceramente. E que todas as nossas idas e vindas permaneçam em minha memória sendo sempre valorizadas com as que virão num carro que, segundo dizem, tem a minha cara.

Mas não tem a nossa história.  

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