
Fazia eu faculdade quando um amigo de classe comentou: "Pôxa, essas aulas de redação publicitária são muito fracas. Eu quero mesmo é aprender como é que se faz um texto para banco, um para perfume e outro para carro."
Foi ali que eu saquei que saía na frente. Fórmulas existem em química como existem em qualquer gramática. Mas não para um texto envolvente e nem por isso menos dinâmico; subjetivo e ao mesmo tempo direcionado.
Um texto para banco pode nem conter palavras. Um para perfume pode ser de uma palavra. E o texto para carro pode precisar de duas páginas.
Escrever bem, antes de mais nada, é técnica expressa em conhecimentos de gramática e estilo. Junte isso ao exercício da sensibilidade e da reflexão, do drible na falta de tempo para leitura e da reverência ao trabalho silencioso de escrever sem a mínima preguiça de reescrever, depois misture tudo e deixe em fogo brando por cerca de três anos. Está pronta a fórmula. Está pronta a Técnica.
Agora escrever bem também é Arte. Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito de sê-lo. Com todo o direito a sê-lo... (F. Pessoa)
A Técnica tem seu espaço. A loucura faz as vezes da Arte, a Via Láctea.
Saber reduzir, simplificar, é Arte. Escrever longos textos é Técnica.
Driblar a deficiência na formação escolar é Arte. Recorrer ao dicionário é Técnica.
Digerir o turbilhão de informações do dia-a-dia é Arte. Não deixar-se alienar também é Arte. Encontrar tais informações é Técnica.
Ler Drummond é o enlace da Arte com a Técnica. Ler quadrinhos, a trepada da Técnica com a Arte.
Respeitar a verdade é Técnica. A Redação com R maiúsculo tem como princípio respeitar a verdade, isso é Técnica. Já conhecer a verdade e a verdade vos libertar é outro papo, e isso é Arte. O propósito de enganar não pertence à Arte. Tampouco à Técnica.
Escrever com clareza é Arte e Técnica. Mais de uma em um determinado texto. Mais de outra, noutro. Expressar o pensamento sem obscuridade é Arte. O fácil tornando-se difícil, graças ao desnecessário, isso é falta de Técnica.
A coerência é Técnica, a concisão é Arte. Ser preciso é Arte, ser correto é Técnica. Ser criativo - aí o bicho pega.
A redação técnica, instrumento de trabalho de biólogos, químicos, farmacêutcos, advogados, promotores, juízes, doutores, peritos, investigadores, físicos nucleares, quânticos e chapados, pode ser criativa, mas não me perguntem como. Se bem que um texto longo, inchado de fatos etc e tal, com termos técnicos e palavras que soam como palavrões aos ouvidos de 80% da população brasuca deve ficar muito melhor com uma conotação afetiva, uma metonímia - que seja - ou a luz da ironia. Só de aridez não se faz uma resenha.
Em um texto para banco, um para perfume e outro para carro, meus queridos, fica a fórmula, fica a Técnica:
Não grites, não suspires, não mates: escreve.
Pensa na doçura das palavras. Pensa na dureza das palavras. Pensa no mundo das palavras. Que febre te comunicam. Que riqueza. (Drummond)
Um comentário:
poxa, muito bom. mesmo.
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