
Robert Guérin, um dos frasistas de uma frase só mais certeiros que eu não conheci, disse certa vez que o ar é composto de oxigênio, azoto e propaganda.
Com isso, o figura nos forneceu duas das características mais evidentes de nossa amada publicidade: a liberdade e a universalidade. Nada mais do que muitos de vocês provavelmente usufruíram no Carnaval quando caíram na folia, mas o que realmente interessa no momento é que nós, criadores de algo tão necessário quanto água no planeta, estamos condenados à liberdade.
Sem amarras, grilhões, paredes. “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” (Cecília Meireles) - Nunca vi liberdade mais presa.
Liberdade com objetivos, mil pressões e imposições, mas faz sentido, afinal, uma das principais geradoras de conflitos de toda história da humanidade - a liberdade - é hoje a base da mais banal atividade de quem vive de publicidade.
Primeiro se cria usando a liberdade.
Depois se repreende: não pode isso, não pode aquilo. O que me faz lembrar da castidade.
Liberdade, sinônimo de calça velha desbotada, expressão que levantou a maior nação, fez 4 filmes e um série de desenhos do Rambo, águia a voar, asa-delta, Jean-Paul Sartre, o ser e o nada. Nossa condição primordial para trabalhar com criatividade. Acima da correria do atendimento, do horário das 8 às 18, mas, quem sabe, em sintonia com o relógio biológico que aponta para alguma solução na privada, na cama, levando sopapos na academia, ou ainda na virada das 8 às 8 em frente à máquina - Macintosh, claro, e de preferência.
Nós, publicitários, criadores dos meios destinados a pegar o consumidor de jeito e convencê-lo a umazinha com ou sem compromisso e com qualquer produto, diga-se de passagem, nós também nos fazemos reféns da universalidade.
Ninguém é de ninguém e todo mundo é de todo mundo. Embora haja agências que não atendam contas políticas, de bebidas alcóolicas e afins - isso tem muito mais ares de lobby - e até o ar é rico em propaganda, já disse o azotado Robert. O fato é que muitas agências só fazem publicidade ao dizer que não atendem contas desses nypes.
Mas esteja certo de que os princípios notórios da publicidade são universais, infinitamente mais que éticos.
Nizan era “o cara” quando o chamavam de babalorixá da propaganda-povo.
O anúncio que vende aqui tem boas chances de vender em qualquer lugar do mundo.
O filme que vence em Cannes é genial em qualquer parte do globo.
E cliente do mundo todo crê que vender é o ar que se respira dentro de uma agência de publicidade. Por isso é rarefeito os anúncios não saírem poluídos.
Cof-cof-cof. Respirem ar puro nesse final de semana.
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